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INSANIA DE UM SIMPLES

Em cismas patológicas insanas,
É-me grato adstringir-me, na hierarquia

Das formas vivas, à categoria
Das organizações liliputianas;
Ser semelhante aos zoófitos e às lianas,
Ter o destino de uma larva fria,

Deixar enfim na cloaca mais sombria
Este feixe de células humanas!
E enquanto arremedando Éolo iracundo,
Na orgia heliogabálica do mundo,
Ganem todos os vícios de uma vez,
Apraz-me, adstrito ao triângulo mesquinho

De um delta humilde, apodrecer sozinho
No silêncio de minha pequenez!

VOZES DA MORTE

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!
Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura

Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!
Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes

Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,
Na multiplicidade dos teus ramos,

Pelo muito que em vida nos amamos,

A UM CARNEIRO MORTO

Misericordiosíssimo carneiro

Esquartejado, a maldição de Pio
Décimo caia em teu algoz sombrio

E em todo aquele que for seu herdeiro!
Maldito seja o mercador vadio

Que te vender as carnes por dinheiro,
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro

E guarda as carnes dos que estão com frio!
Quando a faca rangeu no teu pescoço,

Ao monstro que espremeu teu sangue grosso
Teus olhos -fontes de perdão -perdoaram!
Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,
Se fosses Deus, no Dia de Juízo,

Talvez perdoasses os que te mataram!

SOLILOQUIO DE UM VISIONARIO

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,

Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!
A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto

De humanas impressões visuais que eu sinto,
Nas divinas visões do íncole etéreo!
Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...
Subi talvez às máximas alturas,

Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que inda eu suba mais!

O CAIXAO FANTASTICO

Célebre ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas!
Nesse caixão iam talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffmânnicas visagens

Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!
A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo

No meu fenomenal cérebro cheio...
Era tarde! Fazia muito frio.

Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando o seu passeio!

ULTIMO CREDO

Como ama o homem adúltero o adultério

E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro -este ladrão comum

Que arrasta a gente para o cemitério!
É o transcendentalíssimo mistério!

É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um

Que matou Cristo e que matou Tibério!
Creio, como o filósofo mais crente,

Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui...
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença

O homem particular que eu ontem fui!

IDEALISMO

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!

O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isto que na minha lira

De amores fúteis poucas vezes falo.
O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!

Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,

De Messalina e de Sardanapalo?!
Pois é mister que, para o amor sagrado,

O mundo fique imaterializado
-Alavanca desviada do seu fulero -
E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,

Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

Augusto dos Anjos - IDEALIZACAO DA HUMANIDADE FUTURA

Rugia nos meus centros cerebrais

A multidão dos séculos futuros
-Homens que a herança de ímpetos impuros

Tornara etnicamente irracionais!
Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus do monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,

Dentre as genealogias animais!
Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,

Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!

Augusto dos Anjos - O LAZARO DA PATRIA

Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,

Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de úlceras e antrazes.
Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,

Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes.
Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefantíase dos dedos...

Há um cansaço no Cosmo... Anoitece.
Riem as meretrizes no Cassino,
E o Lázaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

Augusto dos Anjos - O MORCEGO

O MORCEGO
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:

Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede..."
-Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho

E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.

Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!

Augusto dos Anjos - AGONIA DE UM FILOSOFO

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto

Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo

Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...

Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo

O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo

Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço

O império da substância universal!

Augusto dos Anjos - MONOLOGO DE UMA SOMBRA

"Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...

Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo

Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
A Simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra

A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas,

E a morbidez dos seres ilusórios!
Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
-Esta universitária sanguessuga

Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papírus

E a miséria anatômica da ruga!
Na existência social, possuo uma arma

-O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana

Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques

E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o próprio túmulo olha,
Amarguradamente se me antolha,

À luz do americano plenilúnio,
Na alma crepuscular de minha raça

Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o Infortúnio.
Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,

Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens

Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!
Quis compreender, quebrando estéreis normas,
A vida fenomênica das Formas,

Que, iguais a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéia gasta,

O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!
E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,

Sobre a esteira sarcófaga das pestes
A mostrar, já nos últimos momentos,

Como quem se submete a uma charqueada,
Ao clarão tropical da luza danada,
O espólio dos seus dedos peçonhentos.
Tal a finalidade dos estames!

Mas ele viverá, rotos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os agregados perecíveis,

Nas esterizações indefiníveis
Da energia intra-atômica liberta!
Será calor, causa ubíqua de gozo,
Raio X, magnetismo misterioso,

Quimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,

Sonoridade potencial dos seres,
Estrangulada dentro da matéria!
E o que ele foi: Clavículas, abdômen,
O coração, a boca, em síntese, o Homem,

-Engrenagem de vísceras vulgares -
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na lógica medonha

Dos apodrecimentos musculares!
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos
Dentro daquela massa que o húmus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,

Como as cadelas que as dentuças trincam
No espasmo fisiológico da fome.
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante

Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,

Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,

À herança miserável de micróbios!
Estoutro agora é o sátiro peralta

Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...

Como que, em suas células vilíssimas,
Há estratificações requintadíssimas,
De uma animalidade sem castigo.
Brancas bacantes bêbedas o beijam.

Suas artérias hírcicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstêmias,
E à noite, vai gozar, ébrio de vício,
No sombrio bazar do meretrício,

O cuspo afrodisíaco das fêmeas.
No horror de sua anômala nevrose,
Toda a sensualidade da simbiose,

Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,
Como no babilônico sansara,

Lembra a fome incoercível que escancara
A mucosa carnívora dos lobos.
Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.
Negra paixão congênita, bastarda,

Do seu zooplasma ofídico resulta...
E explode, igual à luz que o ar acomete,
Com a veemência mavórtica do aríete

E os arremessos de uma catapulta.
Mas muitas vezes, quando a noite avança,
Hirto, observa através a tênue trança
Dos filamentos fluídicos de um halo

A destra descarnada de um duende,
Que, tateando nas tênebras, se estende

Dentro da noite má, para agarrá-lo!
Cresce-lhe a intracefálica tortura,

E de su'alma na caverna escura,
Fazendo ultra-epiléticos esforços,

Acorda, com os candeeiros apagados,
Numa coreografia de danados,
A família alarmada dos remorsos.
É o despertar de um povo subterrâneo!

É a fauna cavernícola do crânio
-Macbeths da patológica vigília,
Mostrando, em rembrandtescas telas várias,
As incestuosidades sanguinárias

Que ele tem praticado na família.
As alucinações tácteis pululam.
Sente que megatérios o estrangulam...
A asa negra das moscas o horroriza;

E autopsiando a amaríssima existência
Encontra um cancro assíduo na consciência

E três manchas de sangue na camisa!
Míngua-se o combustível da lanterna

E a consciência do sátiro se inferna,
Reconhecendo, bêbedo de sono,
Na própria ânsia dionísica do gozo,
Essa necessidade de horroroso,

Que é talvez propriedade do carbono!
Ah! Dentro de toda a alma existe a prova
De que a dor como um dartro se renova,
Quando o prazer barbaramente a ataca...

Assim também, observa a ciência crua,
Dentro da elipse ignívoma da lua

A realidade de uma esfera opaca.
Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,

Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo o fogo telúrico profundo

E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!
Provo desta maneira ao mundo odiento
Pelas grandes razões do sentimento,

Sem os métodos da abstrusa ciência fria
E os trovões gritadores da dialética,
Que a mais alta expressão da dor estética
Consiste essencialmente na alegria.
Continua o martírio das criaturas:
-O homicídio nas vielas mais escuras,

-O ferido que a hostil gleba atra escarva,
-O último solilóquio dos suicidas -

E eu sinto a dor de todas essas vidas
Em minha vida anônima de larval!"
Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,
Da luz da lua aos pálidos venábulos,

Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,
Julgava ouvir monótonas corujas,
Executando, entre caveiras sujas,

A orquestra arrepiadora do sarcasmo!
Era a elegia panteísta do Universo,
Na podridão do sangue humano imerso,
Prostituído talvez, em suas bases...

Era a canção da Natureza exausta,
Chorando e rindo na ironia infausta

Da incoerência infernal daquelas frases.
E o turbilhão de tais fonemas acres
Trovejando grandíloquos massacres,
Há de ferir-me as auditivas portas,

Até que minha efêmera cabeça
Reverta à quietação da treva espessa
E à palidez das fotosferas mortas!